Rubrica – A Casa do Séc. XXI – #3 Espaços de entrada da habitação

Casa do Vale, em Penafiel, do atelier Frari, com imagem de  Ivo Tavares Studio.

O momento de entrada num edifício marca a separação entre o fora e o dentro, entre o exposto e o protegido e, no caso concreto da habitação, entre o público e o privado.
As características desta transição definem o sucesso desta mudança de ambiente e influencia diretamente as vivências do interior dos edifícios.
A história da arquitectura, demonstra-nos um franco evoluir dos espaços de entrada das habitações, mas infelizmente no sentido de os diminuir, não só em tamanho, como em importância. Cresce a ideia de que os compartimentos de entrada são desnecessários, obsoletos, podendo ser excluídos dos compartimentos essenciais ao programa habitacional.

Contudo, a circunstância de entrar em casa continua a ser encarada como o importante momento de acesso ao “local sagrado” do lar, segundo a cultura japonesa.
Há muito que a arquitetura japonesa nos revela, entre outras, a importância do rigor no desenho dos espaços de entrada de um edifício (denominados de genkan), e não só da habitação.
No Japão, “Cada casa, não importa quão grande ou pequena, terá um armário de sapatos embutido na área do genkan” objeto que, nos dias de hoje, ganha maior relevância, dado o propósito de tal rigor higiénico. De facto, quando entramos em casa trazemos nas solas dos sapatos terra, areias e poeiras, assim como bactérias e vírus, responsáveis por grande parte das doenças que contraímos.
Tal conduta de defesa, talvez tenha contribuído para a longevidade da população japonesa, sendo hoje a esperança média de vida de “87,32 anos para as mulheres e 81,25 anos para os homens”,  segundo um artigo publicado no jornal O Público, a 3 de Agosto de 2019.

As características do local da habitação podem, também, influenciar no entendimento destes espaços de entrada, como áreas de necessária libertação do calçado e vestuário vindos do exterior. Os países do norte da Europa, por exemplo, dão-nos bastantes soluções para um mobiliário mais ou menos inclusivo, para o armazenamento destes elementos num espaço do hall-de-entrada, já que a neve para eles é uma visível justificação dessa necessidade.
Mas o propósito dos compartimentos de entrada, vai para além da higienização do espaço interior. A sua proteção ao nível da intrusão visual, por exemplo, é um fator preponderante para a sua existência e configuração.

No projeto da Casa do Vale, em Penafiel, o momento de entrada ficou marcado por dois recuos do volume do edifício, primeiro da entrada principal na fachada frontal e depois do vão de relação interior-exterior com a fachada posterior, inscrevendo um pátio, encerrado por uma fachada totalmente envidraçada. Esta oportunidade permite a imediata percepção das vistas para o vale, criando um momento de grande beleza no momento de entrar naquele “local sagrado”, fazendo esquecer o que lá fora se passou, para então viver uma nova realidade, a da casa.
Entende-se, portanto, que o hall de entrada não só é vital para a feliz transição interior-exterior, mas que também garante e define o momento de recepção à casa. É o espaço que nos dá as boas-vidas ao nosso lar.

Texto de: Maria Fradinho

Rubrica – A Casa do Séc. XXI – #2 Espaços Comuns da Habitação

Casa do Arco, em ílhavo, do atelier Frari, com imagem de Ivo Tavares Studio.

As áreas de convívio de uma habitação, permitem a articulação entre os momentos de grande dinâmica familiar e os de maior individualidade. Estes espaços, garantem a amplitude de vivências diárias dos ocupantes daquele edifício e definem o núcleo da casa.

As múltiplas necessidades dos dias de hoje, e as mudanças que tal “efervescência” exige no nosso habitar, fazem do planeamento destes espaços a garantia necessária à longevidade e sucesso da nossa casa.

Segundo o artigo de investigação do Centro de Inovação em Arquitectura e Modos de Habitar da Universidade do Porto, publicado no Frontiers of Architectural Research (2018), 29% das necessidades de mudança de habitação “estão ligadas à variação no número de pessoas (por exemplo, mudanças na estrutura familiar ou para acomodar indivíduos extras)” e 19% estão ligadas à função “seja trabalho ou outro”.

Quer seja por alterações ao núcleo familiar, como pela necessidade de implementação de novos usos, ou pela simples necessidade de receber um maior número de ocupantes, ainda que temporariamente, as áreas comuns da habitação requerem, cada vez mais, um desenho flexível e adaptável, que nos permita ampliar as possibilidades de articulação e distribuição dos espaços, de forma espontânea e assertiva com as necessidades do dia-a-dia.

A evolução tecnológica, social, cultural, e económica pressiona, por um lado, a que as áreas habitacionais sejam cada vez menores e, por outro lado, que estas permitam um maior número de opções e configurações. O espaço de teletrabalho será, por ventura, um dos novos paradigmas da Casa Do Séc. XXI., integrando-se na mais recente lista de compartimentos indispensáveis à habitação.

Para ser evolutiva, a arquitectura não tem necessariamente de ser modular, ou ter prevista a sua ampliação, ou redução; requer apenas disciplina nas definições volumétricas, formais e espaciais da habitação, assim como uma forte aposta num mobiliário adaptado e, ainda, com recurso a compartimentações amovíveis ou móveis (que recolhem, rebatem, ou deslizam).

A polivalência da área comum foi uma das pretensões do projeto da Casa do Arco, onde o recurso a uma compartimentação rebatível entre a garagem e a sala, permite que parte da sala seja utilizada como acesso de viaturas ao logradouro e, noutros momentos permite, por sua vez, que a garagem seja “apropriada” pela sala, para dar lugar a eventos com um maior número de ocupantes.

Quer seja por força de alterações nas atividades diárias, ou de atividades sazonais, a adaptabilidade da habitação, sobretudo dos seus espaços comuns, é inevitável para uma sociedade em constante mutação.

 

Texto de: Maria Fradinho

Rubrica – A Casa do Séc. XXI – #2 Espaços Comuns da Habitação

Casa do Arco, em ílhavo, do atelier Frari, com imagem de Ivo Tavares Studio.

As áreas de convívio de uma habitação, permitem a articulação entre os momentos de grande dinâmica familiar e os de maior individualidade. Estes espaços, garantem a amplitude de vivências diárias dos ocupantes daquele edifício e definem o núcleo da casa.

As múltiplas necessidades dos dias de hoje, e as mudanças que tal “efervescência” exige no nosso habitar, fazem do planeamento destes espaços a garantia necessária à longevidade e sucesso da nossa casa.

Segundo o artigo de investigação do Centro de Inovação em Arquitectura e Modos de Habitar da Universidade do Porto, publicado no Frontiers of Architectural Research (2018), 29% das necessidades de mudança de habitação “estão ligadas à variação no número de pessoas (por exemplo, mudanças na estrutura familiar ou para acomodar indivíduos extras)” e 19% estão ligadas à função “seja trabalho ou outro”.

Quer seja por alterações ao núcleo familiar, como pela necessidade de implementação de novos usos, ou pela simples necessidade de receber um maior número de ocupantes, ainda que temporariamente, as áreas comuns da habitação requerem, cada vez mais, um desenho flexível e adaptável, que nos permita ampliar as possibilidades de articulação e distribuição dos espaços, de forma espontânea e assertiva com as necessidades do dia-a-dia.

A evolução tecnológica, social, cultural, e económica pressiona, por um lado, a que as áreas habitacionais sejam cada vez menores e, por outro lado, que estas permitam um maior número de opções e configurações. O espaço de teletrabalho será, por ventura, um dos novos paradigmas da Casa Do Séc. XXI., integrando-se na mais recente lista de compartimentos indispensáveis à habitação.

Para ser evolutiva, a arquitectura não tem necessariamente de ser modular, ou ter prevista a sua ampliação, ou redução; requer apenas disciplina nas definições volumétricas, formais e espaciais da habitação, assim como uma forte aposta num mobiliário adaptado e, ainda, com recurso a compartimentações amovíveis ou móveis (que recolhem, rebatem, ou deslizam).

A polivalência da área comum foi uma das pretensões do projeto da Casa do Arco, onde o recurso a uma compartimentação rebatível entre a garagem e a sala, permite que parte da sala seja utilizada como acesso de viaturas ao logradouro e, noutros momentos permite, por sua vez, que a garagem seja “apropriada” pela sala, para dar lugar a eventos com um maior número de ocupantes.

Quer seja por força de alterações nas atividades diárias, ou de atividades sazonais, a adaptabilidade da habitação, sobretudo dos seus espaços comuns, é inevitável para uma sociedade em constante mutação.

 

Texto de: Maria Fradinho

Rubrica – A Casa do Séc. XXI – #1 Espaços Exteriores da Habitação

Casa J, em Albergaria-A-Velha, do atelier Frari, com fotografia de  Ivo Tavares Studio.

Os exteriores são dos espaços mais versáteis da habitação, podendo ser facilmente transformáveis e admitir novos usos, apenas com recurso a pequenas intervenções.
Quer se trate de um grande ou pequeno logradouro, de um terraço, ou até de uma pequena varanda, cada utilizador poderá moldá-lo à sua imagem, para usufruir das mais variadas formas de relação interior/exterior.

Se, até então, não dávamos o devido valor às varandas, terraços, ou jardins – devido ao acelerado estilo de vida e ao pouco tempo passado em casa – com o confinamento passámos a olhar para estes espaços de forma diferente – revelaram-se uma “joia”!

Segundo o estudo realizado pela JLL (Nova vida, nova casa?), 49% dos inquiridos transformaria a sua habitação devido à pandemia, sendo que 34% modernizaria o espaço exterior. Já em relação à procura de uma nova habitação, a aquisição de um imóvel com um espaço exterior privado, foi a condição que ganhou maior importância depois do confinamento. Percebemos o impacto que estes espaços têm na nossa saúde física e mental, e disso seguramente não iremos abrir mão!

Então, como serão os espaços exteriores da nossa casa amanhã? Com ou sem vegetação? E que tipo de vegetação? Com ou sem área para refeições? E como deve ser esta área, coberta? E de que tamanho? Com ou sem área de preparação de comidas? E existirão zonas lúdicas para crianças e para a prática desportiva?

Estas e outras questões levantam-se na hora de imaginar/criar o nosso espaço exterior privado. Mas desengane-se quem pensa que estes “sonhos” apenas têm lugar para os residentes em habitações unifamiliares, já que os edifícios multifamiliares têm igualmente o direito, e dever, de explorar esta mais-valia!
As “famosas” marquises, por exemplo, terão a sua continuidade ameaçada? Ou a falta de espaço irá permitir a continuidade destes espaços ambíguos e claustrofóbicos?

Os espaços exteriores, quando devidamente trabalhados, são a garantia de uma adequada ventilação e iluminação dos espaços interiores, para além de proporcionarem o equilíbrio entre o aquecimento e arrefecimento desses mesmos espaços, tornando-os mais higiénicos, confortáveis e humanizados. Por isso, muitas são as vantagens de apostar numa arquitectura inclusiva no sentido de fomentar o equilíbrio entre os “cheios e vazios”.

Mas atenção! Não é necessário criar uma “floresta vertical” na varanda, para nos sentirmos num espaço exterior com qualidade, porque isto é tão desproporcional, como descabido!
Veja-se o que aconteceu no complexo de 8 edifícios construídos na cidade de Chengdu, na China, onde a intensa vegetação das varandas-terraço atraiu mosquitos que, por sua vez, afastaram os moradores. Isto depois destes terem investido muito dinheiro na promessa de um “oásis urbi-tropical”. A natureza requer respeito e sensatez, por isso, para espaços pequenos – pequenas soluções!

 

Texto de: Maria Fradinho