Rubrica – A Casa do Séc. XXI – #6 Espaços técnicos da habitação

Casa Diagonal, em Aveiro, do atelier Frari, com imagem de Ivo Tavares Studio.

A lista de funções e atividades da habitação não fica completa sem as respectivas zonas técnicas, complementares aos usos permanentes e sem as quais não seria possível o normal funcionamento da “máquina de habitar”.
Os usos quotidianos destes espaços permitem-nos dar resposta às necessidades do séc. XXI, que obrigam a um sem número de ofícios dentro do mesmo espaço habitacional o que, em contraste com falta de tempo para os executar, leva a uma cada vez maior dependência da tecnologia.

Os trabalhos domésticos de tratamento de roupas (lavar, secar, engomar e coser), de preparação de pequenas e grandes refeições e de serviços de limpeza e bricolage (para a manutenção do imóvel, de viaturas ou de acessórios e equipamentos), fazem do dia-a-dia da habitação um frenesim de múltiplas atividades.
Para organizar uma moradia devemos ter em consideração a importância que estes espaços têm na dinâmica do habitar. Agrupá-los de forma estruturada é a chave para garantir a sua equilibrada articulação mas também autonomia, relativamente aos compartimentos “nobres” da habitação. Os espaços técnicos devem permitir usos práticos, facilitando e simplificando as atividades e, com isso, poupando tempo e recursos.
Garantir uma boa acessibilidade e proximidade entre a cozinha, a lavandaria, a sala de máquinas, os arrumos e a garagem irá melhorar o comportamento de utilização destes espaços, já que em cada um encontramos meios para complementar as atividades dos outros. Garantir o devido posicionamento dos pontos de água e dos equipamentos mais ou menos electrónicos permitirá, por outro lado, uma eficiente gestão espacial, não sendo necessário ter áreas muito grandes para conseguir agrupar um grande número de possibilidades de uso.

Por outro lado, todos estes espaços partilham uma necessidade comum, de assegurar a arrumação da habitação, seja arrumar comida e utensílios de cozinha, produtos e utensílios de limpeza e de tratamento de roupas, ferramentas, ou utensílios e equipamentos variados. Desta forma, é imperativo dispor de mobiliário útil, tendo em vista a complexidade de uma cada vez maior acumulação de bens, em áreas cada vez mais diminutas. Acresce que tal mobiliário deve ainda ser pensado de forma a garantir uma habitação com imagem limpa, arrumada e sem grandes apetrechos visíveis.
Já em 1969, a propósito do desenho de novas políticas da habitação,  no estudo sobre as “Funções e exigências de áreas de habitação, senho do modelo habitacional o que em nada de .omia, gesto Arquitecto Nuno Portas deixava registada a evolução dos espaços da habitação no que concerne ao aumento de atividades de não permanência. Este desenho do modelo habitacional requer sofisticada readaptação, dada a frenética evolução das necessidades técnicas.

Na Casa Diagonal os espaços técnicos foram devidamente pensados para permitir a um casal jovem, e profissionalmente ativo, poder conciliar a gestão da vida profissional com a familiar. Com dois filhos pequenos, a pretensão deste casal obrigou a um desenho habitacional voltado para uma rotina familiar, contudo, não abdicando de uma casa “clean” e elegante, pronta para receber outros familiares e amigos.
De facto, quem os visita pouco se apercebe da gestão de roupas a que obriga a existência de 3 desportistas em casa, por exemplo. Tal é garantido por uma zona de tratamento de roupas que foi incorporada num espaço da garagem, para não haver acréscimo de área num lote urbano bastante limitado. Por outro lado, um vão que permite o rápido acesso ao logradouro através da garagem, faz deste espaço propício para armazenar equipamentos de exterior, mas permite, ainda, um acesso direto ao exterior desde a lavandaria, permitindo facilmente colocar roupa a secar ao ar livre, numa zona discreta da moradia.
A boa articulação destas realidades permite uma economia de áreas de permanência e de circulação, ao mesmo tempo em que assegura a devida proximidade para facilitar na multiplicidade de atividades que temos de executar em simultâneo (é frequente termos de fazer várias coisas ao mesmo tempo, como pôr a roupa a lavar ou arrumar a casa, enquanto cozinhamos, por exemplo).
Nesta moradia, a cozinha abre-se para a zona nobre da sala e do hall-garrafeira, mas tem também acesso direto à restante zona técnica, tornando possível uma atividade constante, dinâmica e prática, para habitantes que querem fazer tudo, mas conseguir também ter tempo para si próprios.

Texto de: Maria Fradinho

Rubrica – A Casa do Séc. XXI – #5 Espaços de Descanso da Habitação

Casa J, em Albergaria-a-Velha, do atelier Frari, com imagem de Ivo Tavares Studio.

O espaço privado de excelência da habitação é o espaço de descanso. O quarto assume, por isso, uma necessidade de organização e distribuição totalmente distinto dos outros espaços. Pretende ser um espaço de conforto e privacidade, que proporcione a intimidade desejada no momento do descanso, mas que permita também outros usos como estudar, vestir, brincar, trabalhar ou até conviver, como se verifica sobretudo nos quartos para os mais jovens, já que são a faixa etária que durante mais horas utiliza este compartimento.
“Dentro da habitação a sala é a divisão onde grande parte dos portugueses passam mais tempo (94%), seguido do quarto próprio (83%) e da cozinha (81%) (…) Já os jovens dos 18 aos 24 anos referem o seu quarto em primeiro lugar (59%).”
Isto acontece por causa do sentido de pertença daquele espaço, o único que é só deles.

Mas esta necessidade de polivalência do quarto pode também ser desenvolvido por adultos, em casos específicos como de casas partilhadas por exemplo, onde o quarto é entendido como o único espaço de propriedade individual, o que suscita a sua utilização para outros fins que não só dormir.
Desenhar um quarto pressupõe, por isso, a articulação de critérios diversos que transcendem o ato de descansar. A versatilidade destes espaços requer um tratamento específico no que toca à iluminação, por exemplo, que deve permitir um quase, ou mesmo total, encerramento luminoso para as horas de descanso e, por outro lado, uma boa iluminação natural, capaz de satisfazer as outras necessidades mais ou menos excecionais.
A diminuição das áreas de habitação não pressupõem a desistência das áreas destinadas a estes usos secundários dos quartos, uma vez que com recurso a mobiliário adaptável é possível tornar um pequeno quarto numa área de perfeita combinação de vários usos. Para tal apenas é necessário fazer “desaparecer” o elemento de maior dimensão: a cama.
“(…) cama futon é completamente desfeita toda manhã, e refeita toda noite. As casas japonesas são notoriamente pequenas e compactas, o espaço é muitas vezes é um privilégio. Dessa forma, a cama futon é planejada para ser precisamente dobrada, junto com o edredom e travesseiro, inclusive. A cama é então guardada em um armário ou guarda-roupa para que o quarto possa ser usado para outras atividades durante o dia.”

Pelo contrário, quando temos habitações de maior dimensão tende-se a construir mais quartos dos que realmente seriam necessários, resultando em compartimentos obsoletos e pouco utilizados.
Para inverter uma situação idêntica, o projeto da Casa J alterou a configuração espacial do volume dos quartos. Não só a suite principal foi alvo de uma total reformulação, como também foram intervencionados os outros três quartos pré-existentes, que foram transformados em apenas dois, cada um devidamente composto por um compartimento de vestir e por uma instalação sanitária privada.

A eliminação do quarto-de-hóspedes, que há muito não era utilizado, permitiu transformar os dois pequenos quartos infantis em compartimentos verdadeiramente capazes de satisfazer as necessidades daquelas crianças em crescimento e desenvolvimento.
Entre a zona de descanso e a zona de vestir foi desenhado um mobiliário fixo destinado ao estudo, com a devida arrumação necessária. Este é um elemento que acompanha a transição para o closet, através de um corredor que acompanha um grande vão envidraçado, com vista para o jardim, mas que é passível de ser encerrado através de duas camadas interiores, sendo a primeira um blackout que bloqueia totalmente a luz exterior, e uma segunda camada feita por uma cortina cujo tecido permite a passagem parcial das vistas e luz, tornando flexível o usufruto daquele vão exterior.
Entre a zona de vestir e a instalação sanitária existe apenas um plano de vidro translúcido, que proporciona um ambiente unitário e remata o conjunto daquele compartimento privado.

Pensar o espaço de descanso da habitação é entende-lo como “o cofre dentro do banco”, um espaço que deve ser devidamente protegido da potencial confusão dos espaços comuns da habitação, mas preparado para servir todos os nossos momentos íntimos, não só dormir, como ler, tratar da nossa beleza, ou mesmo namorar.”

Texto de: Maria Fradinho

Rubrica – A Casa do Séc. XXI – #4 Espaços de Higiene da Habitação

Casa Deck, em Vagos, do atelier Frari, com imagem de Ivo Tavares Studio.

Muitas vezes subestimados, os compartimentos sanitários são, de facto, uma das áreas de maior importância da habitação e em tempos de pandemia temas como a higiene pessoal tornam-se de obrigatória reflexão.
A evolução dos espaços de higiene da habitação foi, de resto, diretamente influenciada pela história da saúde pública, ressurgindo no século XIX, como resposta à insalubridade da Era Industrial e tendo, desde então, sofrido inúmeras adaptações e sofisticações.
Já as civilizações Grega e Romana tinham um forte apreço na higiene pessoal, sendo abundante a referencia aos banhos, como uma espécie de veneração espiritual ao corpo.
Contudo, esse culto do corpo foi posteriormente malvisto, já que estava associado ao erotismo, tendo sido um dos motivos pelo que se popularizou uma sociedade mais recatada nos cuidados do corpo e, por isso, mais insalubre e consequentemente menos saudável.
Mas as constantes epidemias da Era Industrial, e consequentes experimentações médicas, trouxeram ao continente europeu o conceito de higiene como meio de prevenção e contenção de doenças, fazendo dessa época o renascer dos espaços de higiene como bem necessário à qualidade e prosperidade da vida humana.
As precárias condições sanitárias foram resolvidas com sistemas de escoamento de águas residuais (esgotos), percebendo-se o sistema de higiene como um todo, onde a rede pública ganha uma importância vital para a criação de compartimentos dedicados aos cuidados de higiene – as instalações sanitárias.
Estes compartimentos não são exclusivos às necessidades fisiológicas, mas são também mais do que espaços de higiene pessoal, já que são palco de tratamentos-cuidados com a pele, com o cabelo, com as depilações e a maquilhagem. Afinal, a beleza é a supremacia do ser humano.
“É importante destacar como o homem  utiliza  os produtos de beleza  com relação à espiritualidades, à sedução e à saúde.” – LINHA DO TEMPO: A HISTÓRIA DA HIGIENE E DO EMBELEZAMENTO, de Camila PícoloSchütz e Murilo MalucheSchaefer, com orientação de Ana Julia Von Borell Du Vernay França, da Universidade do Vale do Itajaí, Brasil, página 2.
Com a crescente redução da área de habitação, forçou-se a reinterpretação destes compartimentos, sendo frequente vermos as áreas sanitárias separadas de zonas exclusivamente dedicadas ao banho. Verdadeiras engenhocas podem ser encontradas pelo mesmo motivo, desde equipamentos que são ao mesmo tempo sanita e lavatório, a zonas de duche sem demarcação de piso, onde na ausência do banho aquele espaço pode ser utilizado para outro fim.
Por outro lado, nas habitações mais generosas podemos encontrar áreas de higiene que agrupam vários tipos de equipamentos, com banheiras complementadas com zonas de duche, áreas de maquilhagem e outras particularidades. Podem inclusive usufruir de espaços exteriores contíguos, fazendo do momento de utilização daqueles compartimentos um verdadeiro prazer.
Hoje as necessidades destes espaços são mais aguçadas, tanto no rigor dos materiais a aplicar, que devem ser o mais facilmente higienizáveis possível, mas também na comprovada necessidade de salvaguardar a devida ventilação e iluminação natural, para utilizações cada vez mais prolongadas. Os postigos são, por isso, substituídos por francos vãos que conectam o interior e o exterior de forma mais explicita.
Na instalação sanitária da suite principal da Casa Deck, o ambiente romântico da suave transição entre o quarto e a zona de banhos, feita através de um plano totalmente envidraçado, permite enaltecer a intimidade daqueles usos.
Com um ambiente sofisticado e devidamente equipado, este compartimento é um verdadeiro salão de auto-valorização, cenário do ritual diário de culto ao bem-estar e beleza.
Um terraço privado com um jacuzzi integrado remata este conjunto, criando um espaço de extraordinária beleza.
A instalação sanitária é, assim, entendida como uma área de especial interesse –  o espaço onde me cuido e onde me mimo.

Texto de: Maria Fradinho

Rubrica – A Casa do Séc. XXI – #3 Espaços de Entrada da Habitação

Casa do Vale, em Penafiel, do atelier Frari, com imagem de  Ivo Tavares Studio.

O momento de entrada num edifício marca a separação entre o fora e o dentro, entre o exposto e o protegido e, no caso concreto da habitação, entre o público e o privado.
As características desta transição definem o sucesso desta mudança de ambiente e influencia diretamente as vivências do interior dos edifícios.
A história da arquitectura, demonstra-nos um franco evoluir dos espaços de entrada das habitações, mas infelizmente no sentido de os diminuir, não só em tamanho, como em importância. Cresce a ideia de que os compartimentos de entrada são desnecessários, obsoletos, podendo ser excluídos dos compartimentos essenciais ao programa habitacional.

Contudo, a circunstância de entrar em casa continua a ser encarada como o importante momento de acesso ao “local sagrado” do lar, segundo a cultura japonesa.
Há muito que a arquitetura japonesa nos revela, entre outras, a importância do rigor no desenho dos espaços de entrada de um edifício (denominados de genkan), e não só da habitação.
No Japão, “Cada casa, não importa quão grande ou pequena, terá um armário de sapatos embutido na área do genkan” objeto que, nos dias de hoje, ganha maior relevância, dado o propósito de tal rigor higiénico. De facto, quando entramos em casa trazemos nas solas dos sapatos terra, areias e poeiras, assim como bactérias e vírus, responsáveis por grande parte das doenças que contraímos.
Tal conduta de defesa, talvez tenha contribuído para a longevidade da população japonesa, sendo hoje a esperança média de vida de “87,32 anos para as mulheres e 81,25 anos para os homens”,  segundo um artigo publicado no jornal O Público, a 3 de Agosto de 2019.

As características do local da habitação podem, também, influenciar no entendimento destes espaços de entrada, como áreas de necessária libertação do calçado e vestuário vindos do exterior. Os países do norte da Europa, por exemplo, dão-nos bastantes soluções para um mobiliário mais ou menos inclusivo, para o armazenamento destes elementos num espaço do hall-de-entrada, já que a neve para eles é uma visível justificação dessa necessidade.
Mas o propósito dos compartimentos de entrada, vai para além da higienização do espaço interior. A sua proteção ao nível da intrusão visual, por exemplo, é um fator preponderante para a sua existência e configuração.

No projeto da Casa do Vale, em Penafiel, o momento de entrada ficou marcado por dois recuos do volume do edifício, primeiro da entrada principal na fachada frontal e depois do vão de relação interior-exterior com a fachada posterior, inscrevendo um pátio, encerrado por uma fachada totalmente envidraçada. Esta oportunidade permite a imediata percepção das vistas para o vale, criando um momento de grande beleza no momento de entrar naquele “local sagrado”, fazendo esquecer o que lá fora se passou, para então viver uma nova realidade, a da casa.
Entende-se, portanto, que o hall de entrada não só é vital para a feliz transição interior-exterior, mas que também garante e define o momento de recepção à casa. É o espaço que nos dá as boas-vidas ao nosso lar.

Texto de: Maria Fradinho

Rubrica – A Casa do Séc. XXI – #2 Espaços Comuns da Habitação

Casa do Arco, em ílhavo, do atelier Frari, com imagem de Ivo Tavares Studio.

As áreas de convívio de uma habitação, permitem a articulação entre os momentos de grande dinâmica familiar e os de maior individualidade. Estes espaços, garantem a amplitude de vivências diárias dos ocupantes daquele edifício e definem o núcleo da casa.

As múltiplas necessidades dos dias de hoje, e as mudanças que tal “efervescência” exige no nosso habitar, fazem do planeamento destes espaços a garantia necessária à longevidade e sucesso da nossa casa.

Segundo o artigo de investigação do Centro de Inovação em Arquitectura e Modos de Habitar da Universidade do Porto, publicado no Frontiers of Architectural Research (2018), 29% das necessidades de mudança de habitação “estão ligadas à variação no número de pessoas (por exemplo, mudanças na estrutura familiar ou para acomodar indivíduos extras)” e 19% estão ligadas à função “seja trabalho ou outro”.

Quer seja por alterações ao núcleo familiar, como pela necessidade de implementação de novos usos, ou pela simples necessidade de receber um maior número de ocupantes, ainda que temporariamente, as áreas comuns da habitação requerem, cada vez mais, um desenho flexível e adaptável, que nos permita ampliar as possibilidades de articulação e distribuição dos espaços, de forma espontânea e assertiva com as necessidades do dia-a-dia.

A evolução tecnológica, social, cultural, e económica pressiona, por um lado, a que as áreas habitacionais sejam cada vez menores e, por outro lado, que estas permitam um maior número de opções e configurações. O espaço de teletrabalho será, por ventura, um dos novos paradigmas da Casa Do Séc. XXI., integrando-se na mais recente lista de compartimentos indispensáveis à habitação.

Para ser evolutiva, a arquitectura não tem necessariamente de ser modular, ou ter prevista a sua ampliação, ou redução; requer apenas disciplina nas definições volumétricas, formais e espaciais da habitação, assim como uma forte aposta num mobiliário adaptado e, ainda, com recurso a compartimentações amovíveis ou móveis (que recolhem, rebatem, ou deslizam).

A polivalência da área comum foi uma das pretensões do projeto da Casa do Arco, onde o recurso a uma compartimentação rebatível entre a garagem e a sala, permite que parte da sala seja utilizada como acesso de viaturas ao logradouro e, noutros momentos permite, por sua vez, que a garagem seja “apropriada” pela sala, para dar lugar a eventos com um maior número de ocupantes.

Quer seja por força de alterações nas atividades diárias, ou de atividades sazonais, a adaptabilidade da habitação, sobretudo dos seus espaços comuns, é inevitável para uma sociedade em constante mutação.

 

Texto de: Maria Fradinho

Rubrica – A Casa do Séc. XXI – #1 Espaços Exteriores da Habitação

Casa J, em Albergaria-A-Velha, do atelier Frari, com fotografia de  Ivo Tavares Studio.

Os exteriores são dos espaços mais versáteis da habitação, podendo ser facilmente transformáveis e admitir novos usos, apenas com recurso a pequenas intervenções.
Quer se trate de um grande ou pequeno logradouro, de um terraço, ou até de uma pequena varanda, cada utilizador poderá moldá-lo à sua imagem, para usufruir das mais variadas formas de relação interior/exterior.

Se, até então, não dávamos o devido valor às varandas, terraços, ou jardins – devido ao acelerado estilo de vida e ao pouco tempo passado em casa – com o confinamento passámos a olhar para estes espaços de forma diferente – revelaram-se uma “joia”!

Segundo o estudo realizado pela JLL (Nova vida, nova casa?), 49% dos inquiridos transformaria a sua habitação devido à pandemia, sendo que 34% modernizaria o espaço exterior. Já em relação à procura de uma nova habitação, a aquisição de um imóvel com um espaço exterior privado, foi a condição que ganhou maior importância depois do confinamento. Percebemos o impacto que estes espaços têm na nossa saúde física e mental, e disso seguramente não iremos abrir mão!

Então, como serão os espaços exteriores da nossa casa amanhã? Com ou sem vegetação? E que tipo de vegetação? Com ou sem área para refeições? E como deve ser esta área, coberta? E de que tamanho? Com ou sem área de preparação de comidas? E existirão zonas lúdicas para crianças e para a prática desportiva?

Estas e outras questões levantam-se na hora de imaginar/criar o nosso espaço exterior privado. Mas desengane-se quem pensa que estes “sonhos” apenas têm lugar para os residentes em habitações unifamiliares, já que os edifícios multifamiliares têm igualmente o direito, e dever, de explorar esta mais-valia!
As “famosas” marquises, por exemplo, terão a sua continuidade ameaçada? Ou a falta de espaço irá permitir a continuidade destes espaços ambíguos e claustrofóbicos?

Os espaços exteriores, quando devidamente trabalhados, são a garantia de uma adequada ventilação e iluminação dos espaços interiores, para além de proporcionarem o equilíbrio entre o aquecimento e arrefecimento desses mesmos espaços, tornando-os mais higiénicos, confortáveis e humanizados. Por isso, muitas são as vantagens de apostar numa arquitectura inclusiva no sentido de fomentar o equilíbrio entre os “cheios e vazios”.

Mas atenção! Não é necessário criar uma “floresta vertical” na varanda, para nos sentirmos num espaço exterior com qualidade, porque isto é tão desproporcional, como descabido!
Veja-se o que aconteceu no complexo de 8 edifícios construídos na cidade de Chengdu, na China, onde a intensa vegetação das varandas-terraço atraiu mosquitos que, por sua vez, afastaram os moradores. Isto depois destes terem investido muito dinheiro na promessa de um “oásis urbi-tropical”. A natureza requer respeito e sensatez, por isso, para espaços pequenos – pequenas soluções!

Texto de: Maria Fradinho